nas 329 poesias do MA

Sandália

14 de fevereiro de 2009

Quando passar por aqui qualquer dia
Deixa pra mim lá na portaria
Um envelope com a minha alegria
Que você levou por engano
Quando, enganada, saiu
Quando se foi apressada e aflita
Deixando pra trás preciosos pertences:
Meu coração e a sandália de dedo
Enchendo a sala de dor e de medo

De um nunca mais

Quando passar por aqui qualquer dia
Em vez de deixar o envelope com o Zé
Sobe, quem sabe eu te faço um café
Daqueles que a gente tomava à tardinha
Enquanto falava das nossas vidas
Que eram tão próximas
Tão pouco sofridas

Tão lindas de viver

Quando passar por aqui qualquer dia
Esquece que um dia saiu apressada
Lembra que aqui ainda é teu lugar
Fecha os olhos e sonha de novo
Deixa a sandália voltar pro seu pé
Acende uma vela e toma um café
Abre o envelope e põe a alegria

De volta no lugar

Olha Pra Mim

14 de fevereiro de 2009

Olha pra mim mais uma vez
Que eu esqueci de perguntar
A tua música favorita
O teu número da sorte
Em que deus cê acredita
E esqueci de te falar
Que você tá tão bonita
Que tenho medo da morte
E que a vida é esquisita
Se você não está.
Fica só mais um instante
Que eu esqueci de perguntar
Se essa lágrima que escorre
Foi casual, um mero cisco
Ou se corremos o risco
De ser de dor
É de doer. É de matar
Essa saudade que inda vou sentir
Essa tristeza que inda vou chorar
Essa verdade que eu vou dizer
Olha pra mim pra não esquecer
Que eu te amo e vou sempre amar.

Tagliatelle

14 de fevereiro de 2009

Alma quebrada. Que brada
Com o coração sombrio. Sem brio.
Sem amor, sem ódio. Só nada.
Quieto, tolo, fraco. E frio.

Coração sem cor. Sem ação.

Coração carente.
Que chora.
Coração doente
Que piora.
Coração demente
Se apavora.
Coração dormente
Ignora
As súplicas da alma
Que implora
Por inesgotável calma
Nessa hora!

E que o coração desista de desistir
Que o coração insista na insistência
Porque se a alma gêmea demora a vir
Quem pode ir buscá-la é a paciência.

Mas o coração vazio, vadio
Vagueia vagaroso. Acuado.
Desconfiado, arredio.
Seco, oco, roto. Derrotado.

Bate por bater. Dentro do peito.
Sem ritmo, sem força. Tão triste.
E num instante ímpar, imperfeito
Abandona a alma. E desiste.

Não!

13 de fevereiro de 2009

Não é possível
Que tenha sido tudo em vão
O que li nos teus olhos
Não foi mera ilusão
À toa não foi, à toa não foi
À toa não
Só conheci amor quando peguei a tua mão
À toa não
Eu não posso entender
E nem quero querer
Que você suma e tudo se resuma
Em versos perversos,
Ditos malditos e
Pesados pesadelos
Que eram sonhos
E jamais serão
Tratos abstratos
Que se vão.
Não foi em vão. Não foi em vão.
À toa não.
Não!

Tão Difícil

13 de fevereiro de 2009

Vai ser difícil...
Viver sem teu bom-dia
Vai ser difícil...
Ou talvez seja impossível
Sorrir sem teu sorriso
Respirar sem teu perfume
Imaginar sem tua inspiração
Vai ser difícil
Outro rosto no porta-retrato
Outros olhos pra me dar coragem
Outra boca pra fazer silêncio
(Vai ser difícil...)
Chegar em Ipanema
Escrever mais um poema
Falar de cinema com alguém
Vai ser difícil ficar sem…
Vai ser difícil ficar bem...
Tão difícil...
Vai ser tão difícil...
Tão difícil...
Achar graça em Agosto
E beber sozinho
Essa bebida sem gosto
Que já foi... o nosso vinho...
Vai ser difícil...

Janela

13 de fevereiro de 2009

Ah! Eu preciso abrir a janela
Eu preciso ver o sol
Eu quero acabar com essa profana agonia
De todo santo dia
Desde o dia em que você foi embora
Desde aquela hora,
Eu me calei
Todo esse tempo
Mudando e mudo
Em todo esse tempo eu só escuto
Caetano
Calado, como um velho sábio monge
Tibetano
Vendo a minha desbotada eloqüência
Deixar nascer uma bem-vinda paciência
Vendo o meu orgulho imenso
Queimar como um incenso
Que impregnou o ar com um perfume de baunilha
E nostalgia,
Poderosa amônia,
A despertar minha indiscreta insônia
Que, ontem à noite, sem eu perguntar, me disse
Que é vazia e inútil
Minha metamorfose,
Se o amor foge
Pra longe,
Pra onde
Você não vê.
Por isso hoje eu abro a janela,
Fujo desse estéril castigo
Que, errado, julguei ser o meu abrigo
E para cada um que passa eu digo
Como se fosse o meu melhor amigo
Que eu amo você,
Que agora eu já entendi
E eu te quero aqui.

SMS

11 de fevereiro de 2009

Muitas vezes o que escrevo,
Eu sinto.
Outras tantas o que sinto,
Escrevo.
Se escrever que não te amo,
Eu minto.
Se o contrário não escrever,
Eu devo.

Anjinha

11 de fevereiro de 2009

Vez ou outra
O amor chega de mansinho
A passos de passarinho
E ninguém nem se dá conta.
Aí apronta,
Desassossega a gente,
Faz a vida, de repente,
Virar de ponta cabeça.
Há quem mereça
Ganhar reciprocidade,
Achar a paz de verdade
No olho do furacão.
E há quem não.
Não sei de mim
Se não ou se sim.
Ou se talvez, talvez.
E dessa vez
O amor chegou devagar
Com a calma do teu olhar
Na brisa do teu perfume.
E eu, não estava imune,
Me vi de frente pro amor

Faço de conta que o mereço
E, por isso, não te esqueço
Desde o dia em que te vi.

Todo Dia

11 de fevereiro de 2009

Senti frio.
Senti medo.
Senti falta.
Corri pra tentar chegar antes
Mas por meros instantes
Cheguei atrasado.
Menti pra evitar estragar
E quando acordei
Já estava estragado.
Bebi pra esquecer que bebia
Pra esquecer
O que eu não esquecia.
Gritei pra arrancar do meu peito
O passado imperfeito
Que tanto afligia.
Chorei pra lavar a alma
E os olhos incrédulos
No que não enxergavam.
Escrevi por insegurança,
Pra manter a esperança,
Pra desabafar.
Rezei pra não te ver.
Pensei pra te alcançar.
Vivi pra não morrer.
Caí pra levantar.
Calei por falta de opção
E interlocutor.
Amei por falta de amor.
Beijei a boca errada
Sem paixão, sem desejo
E com gosto de nada.
Lembrei de você todo dia
Vivi a agonia
De um condenado.
Lembrei de você todo dia
E por covardia
Estive calado.

Desconhecidos

11 de fevereiro de 2009

Onde você está
Exatamente agora?
No que estará pensando
Daqui a meia hora?
Eu não sei mais nada
Sobre a sua vida
Eu não sei mais nada
Sobre a sua lida
Sobre as suas fotos
Seus rascunhos
Seus sonhos
Seus receios
Seus recreios
Suas juras de amor
Se há amor.
Eu não sei mais nada
Das suas longas viagens
Pelos caminhos mais estranhos
Da imaginação
Que Deus deu pra você.
Nem das suas breves viagens
Com estranhos, pelos caminhos
Que na imaginação,
Deus nos teria dado...
Não sei das suas férias
Das suas misérias
Das suas farturas
E das criaturas
Que ficam embaixo
Ou em cima
Da sua cama.
Não sei se você me ama.
Mas sei se eu amo você.
Não sei como cabe tanto orgulho
Em um metro e sessenta
Não sei como você agüenta,
Suporta essa tormenta
Calada
Parada
Gelada
Como se tudo o que aconteceu
Com tudo o mais que iria acontecer
Fosse nada.
Somos ilustres desconhecidos
Um do outro
E nem faz tanto tempo
Mas ao mesmo tempo
Faz.
Faz frio.
Mesmo no calor.
Tanta gente pra amar
E tanta falta de amor.
Acho que deixei na sua bolsa
Uma bala,
O papel do estacionamento
E o meu melhor sentimento.
Porque não o encontro mais...
E já revirei tudo.
Estou tranqüilo, em pé,
Talvez feliz
Mas com um escudo.
Que me separa do mundo
De todo mundo
Que eu poderia amar
Como amei você.
Onde você está
Exatamente agora?

Que Saudade Que Eu Sinto da Gente

11 de fevereiro de 2009

Que saudade que eu sinto da gente…
Daquele tempo…
Quando tudo parecia ser perfeito,
Quando o mundo parecia ser do jeito
Que eu queria,
Quando todos esses relógios homicidas paravam
Pra eu ver
Que você sorria.
É, eu ainda tenho a coleção que fiz
Com todos os sorrisos que você me deu
Quando me olhava daquele jeito
Meigo, doce, franco,
Que é o seu.
Nem sei porque
Mas hoje deu uma vontade,
Uma vontade louca
De dizer
Que eu faço o meu melhor, o meu maior,
Pra ser sua amiga
Mas,olha, talvez, eu não consiga…
Porque o que eu trago aqui dentro
É diferente,
Tem a ver com essa saudade que eu sinto
Da gente…
Tem a ver com tudo o mais
Que eu nunca mais
Consegui sentir.
E faz tanto tempo…
Milhares de noites em que dormir
É marcar encontro com você…
E saber que é lá que vou escutar de novo
As coisas todas que você me disse
E eu amei que dissesse…
Aquelas coisas lindas, você sabe,
Que a gente não esquece…
É também no sonho que vou sentir seu toque,
Por mais que isso me agrida,
Atravesse a minha vida
E provoque,
Uma coisa esquisita,
Que apesar de bonita,
Eu jurei pra mim mesma, que não quero sentir.
Demorei pra perceber que eu não podia fugir
Porque não existe lugar pra eu ir
Que não sinta você
Porque quando escolhemos o Não,
Na pressa acabei esquecendo
De arrancar você do coração.
Nossa! Que saudade que eu sinto da gente!

Um Segredo

11 de fevereiro de 2009

Você me deixa tão aflita
Que eu preciso ver se estou bonita
Pra falar ao telefone
Com você…
Minha voz fraqueja, a boca seca,
A mão sua.
A mão que é sua.
E eu fico nua,
Me entrego.
Não nego
Minha felicidade
Que não se recolhe,
Não se intimida,
Não escolhe
Momento pra fugir, exultante,
Do peito.
Peito que é seu.
Meu amor não morreu,
E isso é tudo.
Durante muito tempo ficou mudo,
Mas vive.
Cada dia mais maduro,
Cada hora mais seguro,
E ainda tão puro,
Como antigamente.
Quando tudo o que eu tinha
Era a promessa da gente…
Fui eu quem trouxe a serpente?
Fui eu que decidi sair
Do nosso paraíso?
Ou era só conto de fada
E o que era tudo, hoje é nada
Porque deu meia-noite?
Meu Deus! Você deve estar se perguntando
Da onde eu estou arrancando
Esse sentimento…
Mesmo sem teu consentimento
Eu o mantive guardado
No lugar em que ficou largado
Quando você
Preferiu não voltar.
Você, a essa altura,
Já pensa que é loucura
E, sim, eu sou louca
E só penso em sua boca
Sussurando ao meu ouvido
Ou - quem sabe? - o gemido
De prazer
Que está contido,
Está preso…
Isso te deixa indefeso?
Te assusta?
Não é preciso ter medo
Isso era só um segredo
Que eu resolvi te contar!

Olhos

11 de fevereiro de 2009

Olhos da Lara
São lindos,
Caros.
Os olhos da cara.

São meigos,
São puros,
Pretensamente seguros,
Os olhos da Lara.

São olhos felinos,
São olhos divinos,
Que olham pra Deus.
E hipnotizam,
Se sintonizam,
Se sincronizam
Com os meus.

Olhos da Lara,
Tão bonitos!
Mesmo quando tristes,
Mesmo quando aflitos.
Mesmo quando errantes
E sempre mais que antes
Sempre apaixonantes,
Sinceros.
Às vezes, severos.

Olhos da Lara
São olhos que abraçam,
E não disfarçam
Sentimentos
São olhos castanhos.
São olhos atentos.
São olhos que brilham,
São olhos que trilham
Novos caminhos.
São olhos de olhares
Tão singulares,
Que parecem carinhos!

Olhos da Lara
Me encantam.
Olhos que acalantam.
São olhos pra olhar,
Olhos pra sonhar.

Olhos da Lara
(que coisa mais rara!)
Me fazem amar.

Elixir

11 de fevereiro de 2009

Se
Olho pro lado e não te encontro
E não escuto tua voz, tampouco
Talvez esteja mesmo um tanto louco
Porque ainda sinto teu perfume aqui.
Se
Já não me lembro o dia em que te vi
Nem de tudo aquilo que disseste
Talvez eu seja mesmo um cafajeste
E não mereça estar do teu lado.
Se
Eu não enxergo o que fiz de errado
E não compreendo a tua atitude
Talvez eu seja mesmo muito rude
E estás bem certa quando dás de ombros.
Se
Sobrevivi em meio a esses escombros
E te desejo mais que à própria vida
Talvez tu sejas mesmo a mais querida
Que poderia pra mim existir.
Se
Teus beijos doces foram um elixir
Do mais perfeito e sábio alquimista
Talvez na vida eu jamais desista
De te amar e de te ter me amando.
Se
Cheguei aqui porque segui errando
Daqui não passo se não te levar
Talvez eu deva mesmo te esperar

E é só isso que eu tenho feito.

Erros, Acertos, Erros

11 de fevereiro de 2009

Eu roubei a orquídea do rei
Pra enfeitar a tua janela
E a minha lapela,
Usei terno.
Eu mandei o capeta pro inferno
Eu driblei o beque e o goleiro,
Eu fui casto um dia inteiro.
Me esquivei das meninas
E limpei as latrinas
Do banheiro.
Eu chorei todas as letras
Que você me escreveu
Eu rasguei algumas outras
Que você não leu.
Eu fiz o dever de casa da vida inteira
Que eu nunca tinha feito.
Me aceitei imperfeito.
Eu entendi teoremas,
E vomitei poemas.
Não paguei minhas contas em dia
Mas fui no enterro de gente
Que eu nem conhecia.
Eu acabei com a cachaça
Pra entender que a dor não passa.
Eu quebrei a vidraça
E me cortei.
Eu vi meu sangue
Escorrendo
Vi a esperança
Morrendo
Vi a lua
Nascendo
Todos os dias.
Eu orei de joelhos
E de todos os jeitos
E pra todos os santos
E por todos os cantos.
Eu gritei.
Ajudei a velhinha na rua.
Ajudei o aleijado na escada.
Fui ajudado por tanta gente
Que não quis nada.
Eu errei,
Acertei.
Eu errei de novo.
Eu fiz tanta coisa
Tanta coisa nova
Eu me coloquei à prova.
Eu me testei.
Eu não falei eu te amo pra ninguém
Desde o último que eu te disse.
Eu queria que você me visse.
E não.
Eu não invadi o aeroporto
Eu não seqüestrei o avião.
Eu me fingi de morto.
E eu não fiz serenata em Milão.

Mas devia.

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