madrugada

toda madrugada guarda
suspiros e segredos
e aguarda a mãe dos medos,
a solidão.
toda madrugada é puta.
e pura.
deita-se, escuta,
e atura
lamentos e loucura
dos que sofrem de amor.
toda madrugada é dor.
é fria.
noite que quer ser dia,
irônica,
como uma filarmônica
de silêncios.
é um sorriso blasé.
toda madrugada
é, ainda assim, a estrada
que me leva até você.

sibéria

te dei minhas palavras.
jurei amor.
mandei doce.
mandei livro.
mandei flor.
mandei o melhor de mim,
repeti, como um mantra, o sim.
e ainda assim
não foi o bastante.
sobrevivo ignorante.
não sei onde moras.
nem entendo por que escondes.
não sei se ainda choras.
nem sei por que não me respondes.
por ti,
rezei pela vida
do meu inimigo.
fiz coisas que nem Deus sabe
que consigo.
desrespeitei meus medos,
e tenho estado por aqui,
inteiro,
sem segredos.
comi o pão que o diabo amassou,
no refeitório do inferno.
não morri no teu inverno,
de sibéricas palavras
e atitudes.
fiz tudo o que pude.
e mais um pouco.
há quem me chame de louco.
e mesmo eu, me chamo.
só mesmo um louco pra amar
como eu te amo.
à exaustão.
dando, em poesia,
como o pão de cada dia,
o próprio, e todo,
coração.